Fahrenheit 451 (abertura)
A sequência de abertura do filme reclama uma atenção especial, porque se trata aqui de uma espécie de manifesto sobre o estado do mundo contemporâneo ― que tem recortes filosóficos importantes.
Esse manifesto foi escrito, no entanto, a partir da luz e dos elementos da linguagem cinematográfica, seguindo a lógica dos princípios da Nouvelle Vague.
Comecemos pela incomum ausência de créditos iniciais.
Um filme sobre a morte da palavra escrita não poderia começar com letras na tela. Ao fazer com que os créditos fossem lidos, eu queria que o espectador sentisse, desde o primeiro segundo, que ele entrou em um território onde a visão e a audição são as únicas ferramentas de recepção permitidas. É o cinema afirmando sua autonomia: a imagem (o close nas antenas) e a voz são tudo o que resta quando o pensamento reflexivo dos livros é incinerado. [Le Plaisir des Yeux *]
Essa perspectiva aparece no desenrolar do filme de modo quase insistente, por meio de uma espécie de revista em quadrinhos totalmente desprovida de palavras.
A "incompetência" para ler, por sua vez, sugere uma infantilização das pessoas e faz pensar em dois vocábulos a considerar neste caso.
Inicialmente, a palavra infância, que tem origem no latim infantia, que significa "incapacidade de falar" ou "sem fala".
Não se pode deixar de lado, igualmente, o vocábulo idiota, que no mundo grego indicava a pessoa que se dedicava apenas à vida privada, alheia às questões públicas da polis (cidade-estado).
Considerados os dois termos, evidencia-se que Truffaut está gritando, mais do que dizendo, que os habitantes da cidade vivem de modo infantil.