Direção de arte e fotografia em Fahrenheit 451

Quando François Truffaut transpôs a distopia de Ray Bradbury para o cinema em 1966, ele não buscou o futurismo plástico de Star Trek, nem a grandiosidade de Metropolis. 

Em vez disso, operou uma "arqueologia do presente". A força visual de Fahrenheit 451 reside na sua recusa em criar um "amanhã" imaginário, optando por distorcer o "hoje" por meio de escolhas rigorosas de direção de arte, assinada por Tony Walton, e uma fotografia revolucionária de Nicolas Roeg.

Locações: o brutalismo

A escolha das locações foi o primeiro ato de design imagético do filme. Truffaut utilizou o Alton Estate, em Roehampton, Londres, um expoente do brutalismo britânico influenciado por Le Corbusier.

Design de interiores

Os interiores, construídos nos Pinewood Studios, operam uma "higienização do simbólico". A casa de Montag é o epicentro dessa análise:

A fotografia de Nicolas Roeg

A fotografia de Nicolas Roeg é o que impede o filme de se tornar um mero folhetim de ficção científica. Suas escolhas técnicas conferem ao filme uma camada de estranhamento:

A alquimia dos materiais

A direção de arte estabelece um conflito material explícito. De um lado, o mundo estatal: concreto, aço, sinais de rádio e telas planas. Do outro, o mundo proibido: a celulose, a tinta, o couro e a cola (observem-se os padrões da terra dos homens-livro).

A queima dos livros não é apenas um evento narrativo; é uma apresentação visual de texturas. Truffaut filma as páginas se contorcendo sob as chamas como se fossem pele humana. O fogo é apresentado como um agente de limpeza estética, uma operação de "limpeza dos afetos" que visa transformar a cultura em uma superfície lisa e sem memória.

Conclusão

Fahrenheit 451 é um triunfo da direção de arte sobre a fantasia. Ao escolher locações reais e distorcê-las por meio de uma lente crítica, Truffaut e sua equipe criaram um avatar do totalitarismo que ressoa até hoje. 

O filme não nos alerta sobre um futuro distante, mas sobre como o design, a arquitetura e a imagem podem ser usados para achatar a experiência humana, relatando por meio dos materiais utilizados na vida corrente o insuportável de uma opressão que, de tão onipresente, não se deixa ver.

Para o leitor do Caixa Vazada, fica a lição: a beleza técnica do filme é, em si, a sua maior advertência política.